Avatar – ilusão x realidade
Esta resenha não é recomendada a quem não viu o filme e ainda pretende fazê-lo (spoiler).
No Estadão de hoje (domingo) há uma crítica de Daniel Piza ao filme Avatar, cunhado como revolucionário pela crítica – na verdade é revolucionário pois precisava-se reverter em lucro os pesados investimentos em efeitos eletrônicos e a maciça campanha de marketing… pois nada vi de revolucionário além de uma parafernalha de efeitos especiais que chega por vezes até a insultar os olhos com tantos estímulos que mal conseguimos acompanhar.
O aspecto ressaltado por Piza é fundamental, apontando a temática clichê do filme, que coloca em pauta a exploração dos mais ricos e avançados tecnologicamente sobre os subdesenvolvidos. De fato, há momentos em que a problemática (como bem disse Piza, repetida em Titanic) deste conflito é gritante, com os humanóides realizando rituais muito parecidos a rituais tribais africanos, ou os paralelos entre a invasão dos humanos e a invasão dos E.U.A. no Vietnam.
Entretanto outra coisa, a meu ver mais grave, chamou-me mais atenção no filme: o duelo entre fantasia e realidade. O protagonista do filme é um ex-marine que ficou tetraplégico e que convive com as frustrações de ter sido altamente funcional fisicamente no passado e agora se ver em uma cadeira de rodas. Em um mundo cheio de cobranças, como é o mundo militar, onde se vê impotente pelo seu problema médico, qual é a sua saída? A saída para uma realidade alternativa. Paralelos com mecanismos psicóticos são meras coincidências…
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“Veste-se” então de um gigante azul, ganha uma nova vida, rouba a mulher mais cobiçada da tribo, a filha do general (se não me engano…), e acaba por tornar-se líder da comunidade, salvando-a. O que mais poderia querer? Ao voltar da experiência onírica, validada como realidade no filme, volta a batalhar com impotência, ninguém lhe dá ouvidos, relacionam-se com ele por interesse, desprezam-no por ser inferior ao irmão. No final a fantasia é validade em detrimento do real ao tornar o herói em um verdadeiro cidadão extra-terreno, deixando seu corpo humano de lado.
O tema da fantasia sendo validada ao invés da realidade também não é novo; é por isso mesmo que vamos ao cinema. Entretanto o que deve ser ressaltado, e rechaçado, é que esta clivagem é extremamente conveniente ao mundo atual, e que ela não deve ser fomentada em termos tão extremos. Retomando Adorno e a Indústria Cultural (texto abaixo), somos submetidos ao “não-pensamento” através da única coisa que sobraria para nos fazer pensar, que é a cultura. Filmes como Avatar inundam-nos com um sem-número de efeitos especiais que fazem a tarefa da reflexão durante o filme um trabalho impossível; estamos mais ocupados em captar todos os truques de computador, todos aqueles coloridos diferentes na tela (como as abelhas que procuram as flores pelas cores para chegar ao pólen) que não sobra tempo ou espaço virtual interno para o pensamento. Em conformidade com os objetivos da indústria cultural, a fantasia é contemplada e uma enorme ode ao “não reflita, apenas sinta o prazer sensorial da tela e da idéia de validar a alienação e escapar ao mundo sem sentido onde você só é obrigado a consumir”.
O prazer sensorial irrefletido que, ao contrário do que os filósofos pregam (o prazer da humanidade estaria na descoberta do novo e no cultivo do pensamento), substitui o pensamento pelo conforto da alienação. Valida a vida alternativa que pouca conexão tem com a chata realidade, e estimula a alienação do real.
Ilustrando: como o filme parece muito com os clássicos jogos de RPG, em uma versão futurista, não será espanto que logo se torne mania entre os gamers e reproduzindo uma realidade alternativa; futura opção, por exemplo, para os “Hikikomoris” em potencial que procuram RPGs massivos online para fugirem abrigarem-se do real.
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