Ética e a sociedade
Saiu no Caderno MAIS da Folha de São Paulo uma reportagem sobre a ética dos brasileiros. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, os brasileiros têm um senso ético apurado, comparado a países como Noruega e Finlândia. A despeito disso, a maioria da população admite já ter cometido delitos. Uma disparidade que com certeza nos faz pensar.
Nosso senso ético pode ser encarado de diversas maneiras; uma mistura de pensamento racional com pensamento emocional, visões consequencialistas versus visões deontológicas. Várias destas maneiras têm seus defensores e críticos, mas uma das partes que coloco em foco é a função da ética na sociedade.
De que nos serve a ética? De maneira bastante simplista, é constiuinte fundamental da sociedade, serve basicamente para a funcionalidade da vida em grupo. É ferramenta essencial para a manutenção da sociedade, como norma intuitiva e/ou objetiva do que é certo ou errado. A ética sempre parte do grupo para o indivíduo, visando manter a coesão daquela primeira.
Sendo parte visceral da sociedade, podemos fazer algumas suposições sobre o contrasenso apresentado acima sobre senso ético e atitudes contrárias a ele; a primeira delas é óbvia e é a de que o brasileiro não burla por ignorância, mas sim por outros motivos.
Pois bem, que motivos? Poderíamos pensar de uma perspectiva psicológica; o funcionamento do desejo e da regra imposta, do deleite em quebrar a regra, em escapar às sansões elaboradas pela sociedade. Muito poderia se desenvolver sobre a figura do pai como elaborador de regras, como responsável por jogar a criança à sociedade, sobre o Brasil paternalista. Explica algo, mas ainda é pouco; na Noruega também há humanos com seus desejos e suas regras, e lá não há esta disparidade “senso ético x atitude anti-ética”. Penso que tais explicações são perfeitamente válidas para as sessões de psicoterapia, para o individual. Fazem sentido para a psicanálise como ciência do individual.
Uma explicação etiológica deste gênero, entretanto, tem necessariamente de levar em conta fatores históricos e étnico-culturais do Brasil. Mas não pretendo analisar isso aqui; aponto apenas como alguns dos fatores envolvidos o fato de termos sido colônia por muito tempo, o papel secundário que sempre tivemos na política internacional (sempre debaixo das asas de outros países, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, etc.) e os nossos colonizadores.
Prosseguindo para o que desejo realçar aqui; aumentando-se um pouco o escopo atentamos os olhares para a massa e seu funcionamento dinâmico. Para que precisamos assimilar regras? As regras de uma ética são necessárias ao nosso desenvolvimento. Só podemos nos fazer indivíduos, completos, quando ingressamos na sociedade. Isso tem um preço, renunciar aos nossos desejos e impulsos para cumprir algumas exigências de vida em grupo, representadas entre outras coisas pela ética. Nosse senso ético hipertrofiado, destarte, denuncia que estamos em estado de necessidade de sociedade. Ter este senso assimilado com tanta acurácia na mentalidade popular denota que queremos este senso, que necessitamos destas regras de sociedade e nos revela esta necessidade.
Por outro lado, as atitudes contraditoriamente opostas denunciam também que estas regras, apesar de as querermos por nossa carência de sociedade, não encontram validade, e acabamos sucumbindo à individualidade dos nossos desejos não-coletivos. Quando não nos marcamos corretamente pela sociedade, suas regras não fazem sentido, produzindo a ambiguidade de as necessitarmos, para adentrarmos o mundo coletivo, e de não a necessitarmos, pois pouco marcados sucumbimos mais facilmente à nossa interioridade.
Não adianta enrijecer as leis apenas, temos de fazer com que ela faça sentido a nós, temos de envolver os indivíduos em uma sociedade real e não alienada.

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