RSS Feed

Cafezinho para aprender o abecedário

Posted on Tuesday, September 22, 2009 in Uncategorized

Vi na televisão uma reportagem falando dos benefícios do café para a criança, ressaltando principalmente seu melhor rendimento nas escolas. Evidentemente a reportagem falava mal dos abusos da substância cometido por adultos, não recomendava seu uso para quem tivesse qualquer problema psiquiátrico; mas falava de seu poder anti-oxidante no organismo e enfatizava o fato de estimular a criança, deixá-la mais atenta, render mais na escola.

O café é uma das substâncias mais “abusadas” no mundo inteiro, ou seja, é a que mantém um dos maiores contingentes de dependentes e de pessoas que a usam de maneira nociva no mundo (sim, em alguns lugares há mais “viciados” em café do que em cigarro, maconha ou álcool). De um lado proibe-se o fumo em locais públicos, mas por outro regulariza-se o uso de café nas escolas, tornando-o rotina?

Alguém poderia argumentar que o fumo não apresenta qualquer tipo de benefício, o café sim. Mas é só isso? E a grande massa de pessoas estimulante-dependentes que a cafeína gera? Se este risco é real, o que dizer de medidas que apóiam o uso do estimulante aos escolares?

Esta medida deve ser entendida de duas maneiras, não necessariamente excludentes: a primeira é que alguém quer vender café. E possivelmente este alguém tem um lobby  considerável junto aos tomadores de decisões para estimular o uso do estimulante.

A segunda vem na esteira da combinação voraz de nossos instintos com o sistema econômico. Não é novidade para ninguém que o capitalismo é um regime dedicado ao acúmulo de dinheiro (ou mais-valia), coisa que constitui-se a principal codificadora de nosso mundo hoje em dia (já que tudo resume-se a ter mais ou menos dinheiro). Este excesso que somos ensinados a acumular e que nos confere poder faz paralelo com a nossa gula, onde comemos para além do que deveríamos. Nunca se ganha dinheiro suficiente, é preciso sempre ganhar mais, assim como o guloso que nunca come o suficiente para sua sobrevivência. Apesar de o termo ser batido, o prazer da gula pode ser compreendido pela oralidade de Freud. A fome é insaciável, a fome de dinheiro cresce de maneira exponencial.

Nesta escalada de vazios, faltas, preenchimentos, satisfações e novos vazios, novas buscas, etc., a humanidade avança para além de sua capacidade. A velocidade é maior do que podemos suportar; surgem as velhas questões de tempo, de ansiedade, e a coisa acaba, terrivelmente, se espalhando para os escolares. Pois eles não podem, agora, ter o direito mais de ter sono pela manhã. Devem acordar já alertas e prontos a engolir toda a informação que lhes for oferecida (claro, se houver um cafezinho por perto, a digestão é até melhor!).

Como se não bastasse a maré de TDAHs (uma das ondas farmacológicas da psiquiatria capitalista consumista) que faz a alegria dos adeptos ao biologismo psíquico, agora mesmo aqueles com “soninho” ou “meio dispersos” na aula vão direto para o café! (mas discreta e sutilmente, pois pode ser que um dia vá causar dependência…)

Be the first to comment.

Leave a Reply