<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Loucurólogus</title>
	<atom:link href="http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus</link>
	<description>Loucura, Sociedade e Filosofia</description>
	<lastBuildDate>Sun, 07 Mar 2010 20:13:26 +0000</lastBuildDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.8</generator>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
			<item>
		<title>Capital social: Chile, São Paulo, Nova Iorque</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=36</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=36#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 20:11:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=36</guid>
		<description><![CDATA[
Neste domingo estava lendo no Estado sobre o terremoto no Chile; em uma reportagem, o depoimento de um sociólogo traduzia sua indignação com os constantes saques que o país vem sofrendo. Nas cidades mais abaladas reina um clima de medo; furtos são corriqueiros, e estes atos não são restritos a determinada classe social, ou seja, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://api.ning.com/files/6tFOqzhJhDR1skxNx-ExT17rsuha1quNK*jPpOpC5G8qglz4EJ2QBf0PPJ9BAyS2/agentedemudanca.jpg"><img class="alignnone" src="http://api.ning.com/files/6tFOqzhJhDR1skxNx-ExT17rsuha1quNK*jPpOpC5G8qglz4EJ2QBf0PPJ9BAyS2/agentedemudanca.jpg" alt="" width="353" height="400" /></a></p>
<p>Neste domingo estava lendo no Estado sobre o terremoto no Chile; em uma reportagem, o depoimento de um sociólogo traduzia sua indignação com os constantes saques que o país vem sofrendo. Nas cidades mais abaladas reina um clima de medo; furtos são corriqueiros, e estes atos não são restritos a determinada classe social, ou seja, não se trata de luta de classe, mas sim de  uma prática disseminada em todos os extratos sociais. O autor lamentava-se por ter acreditado erradamente que no país houvesse mais capital social, fato desbancado por estas ocorrências.</p>
<p>Logo após um artigo muito bom entitulado &#8220;A sociedade Narciso e a saúde&#8221;, de Roger Cohen, de Nova Iorque. &#8220;A comunidade desapareceu ou se desgastou. Em seu lugar entrou um individualismo frenético, o solipsismo de prazeres grudados nas telas, os prazeres incorpóreos das redes de relacionamento social e a vida a la carte definida por 600 canais de TV e uma multidão de blogs.&#8221;</p>
<p>Estes fatos indicam uma falência do dito capital social, material que funcionaria como uma &#8220;liga&#8221; entre os diversos indivíduos da sociedade, mantendo-a coesa. É o capital social, ou melhor, simplificando, é a sociedade o contrapeso da individualidade. É através desta liga que não somos deixados aos nossos próprios fantasmas e impulsos, responsáveis por atos mais animalescos, no sentido literal da palavra, como matar, agredir alguém, ou agredir a si mesmo. Foi assim que escreveu também Durkheim, pensando no suicídio individualista; perda de laços sociais deixando o indivíduo às voltas com suas tendências patológicas.</p>
<p>Esta falência não se vê no Chile, devastado por catástrofe natural, ou em Nova Iorque, capital do capitalismo individualista. É uma tendência global que tende a ser mais facilmente observada nas grandes cidades, como São Paulo.</p>
<p>Tem-se observado cada vez mais a falta dessa &#8220;liga&#8221; social; criminalidade, vandalismo. Brigas e violência banal, seja na fila do banco, do supermercado, até mal-entendidos e discussões hostis por vaga para estacionar no shopping-center. Banalidade. Talvez um dos reflexos mais simbolizadores desta falta de capital social seja a banalidade. A falta de envolvimento afetivo com o mundo e com o próximo traduz-e neste termo. Quando o pêndulo entre sociedade (pluralidade) e indivíduo pende mais para este último, deixando quase desaparecer o primeiro.</p>
<p>Nas ciências de saúde mental há diversos e inúmeros reflexos disso. Durkeim, como citado acima, já dizia isso há mais de 100 anos atrás. Entretanto o que gostaria de apontar aqui é a crescente falta de relfexão (termo técnico: <em>insight</em>). Se a sociedade, pela sua falta de coesão, tende a nos largar cada vez mais para nós mesmos, é um contato pobre. É um voltar-se para si deficitário, onde não há reflexão, há apenas busca de auto-satisfação, como sugeriu Cohen na reportagem. É patente e flagrantemente mais freqüente observarmos o uso irrestrito de psicotrópicos, por exemplo, como mecanismo desta inflexão patológica: angustia-se, busca-se a medicação (em geral anti-depressivos), toma-se o remédio, não se busca entendimento daquilo (terapia) e com isso os conflitos se silenciam e permanecem ali, debaixo do tapete. Não há um movimento para entendê-los ou desamarrá-los. Como que um &#8216;para que vou entendê-los? Quero abafá-los e continuar minha vida pois tenho muito a fazer&#8217;.</p>
<p>E assim continua. O descaso para com o outro, para com a sociedade, resposta e contribuidor para o pouco capital social, é embutido na estrutura psíquica e transforma-se em um descaso consigo mesmo. Não escuto o outro e também não escuto a mim mesmo. Tudo fica plano, frio e impessoal. Cabe a nós nos darmos conta primordialmente deste primeiro mecanismo silenciador que opera na sociedade e tentarmos quebrar este ciclo; primeiramente com nós mesmos, e depois com a sociedade.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=36</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Avatar &#8211; ilusão x realidade</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=34</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=34#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 17:11:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=34</guid>
		<description><![CDATA[ Esta resenha não é recomendada a quem não viu o filme e ainda pretende fazê-lo (spoiler).
No Estadão de hoje (domingo) há uma crítica de Daniel Piza ao filme Avatar, cunhado como revolucionário pela crítica – na verdade é revolucionário pois precisava-se reverter em lucro os pesados investimentos em efeitos eletrônicos e a maciça campanha de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> Esta resenha não é recomendada a quem não viu o filme e ainda pretende fazê-lo (spoiler).</p>
<p>No Estadão de hoje (domingo) há uma crítica de Daniel Piza ao filme Avatar, cunhado como revolucionário pela crítica – na verdade é revolucionário pois precisava-se reverter em lucro os pesados investimentos em efeitos eletrônicos e a maciça campanha de marketing&#8230; pois nada vi de revolucionário além de uma parafernalha de efeitos especiais que chega por vezes até a insultar os olhos com tantos estímulos que mal conseguimos acompanhar.</p>
<p>O aspecto ressaltado por Piza é fundamental, apontando a temática clichê do filme, que coloca em pauta a exploração dos mais ricos e avançados tecnologicamente sobre os subdesenvolvidos.  De fato, há momentos em que a problemática (como bem disse Piza, repetida em Titanic) deste conflito é gritante, com os humanóides realizando rituais muito parecidos a rituais tribais africanos, ou os paralelos entre a invasão dos humanos e a invasão dos E.U.A. no Vietnam.</p>
<p>Entretanto outra coisa, a meu ver mais grave, chamou-me mais atenção no filme: o duelo entre fantasia e realidade. O protagonista do filme é um ex-marine que ficou tetraplégico e que convive com as frustrações de ter sido altamente funcional fisicamente no passado e agora se ver em uma cadeira de rodas. Em um mundo cheio de cobranças, como é o mundo militar, onde se vê impotente pelo seu problema médico, qual é a sua saída? A saída para uma realidade alternativa. Paralelos com mecanismos psicóticos são meras coincidências&#8230;</p>
<p><img class="aligncenter" src="http://sweetlucy.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/12/avatar-filme331.jpg" alt="" width="540" height="332" /></p>
<p>“Veste-se” então de um gigante azul, ganha uma nova vida, rouba a mulher mais cobiçada da tribo, a filha do general (se não me engano&#8230;), e acaba por tornar-se líder da comunidade, salvando-a. O que mais poderia querer? Ao voltar da experiência onírica, validada como realidade no filme, volta a batalhar com impotência, ninguém lhe dá ouvidos, relacionam-se com ele por interesse, desprezam-no por ser inferior ao irmão. No final a fantasia é validade em detrimento do real ao tornar o herói em um verdadeiro cidadão extra-terreno, deixando seu corpo humano de lado.</p>
<p>O tema da fantasia sendo validada ao invés da realidade também não é novo; é por isso mesmo que vamos ao cinema. Entretanto o que deve ser ressaltado, e rechaçado, é que esta clivagem é extremamente conveniente ao mundo atual, e que ela não deve ser fomentada em termos tão extremos. Retomando Adorno e a Indústria Cultural (texto abaixo), somos submetidos ao “não-pensamento” através da única coisa que sobraria para nos fazer pensar, que é a cultura. Filmes como Avatar inundam-nos com um sem-número de efeitos especiais que fazem a tarefa da reflexão durante o filme um trabalho impossível; estamos mais ocupados em captar todos os truques de computador, todos aqueles coloridos diferentes na tela (como as abelhas que procuram as flores pelas cores para chegar ao pólen) que não sobra tempo ou espaço virtual interno para o pensamento. Em conformidade com os objetivos da indústria cultural, a fantasia é contemplada e uma enorme ode ao “não reflita, apenas sinta o prazer sensorial da tela e da idéia de validar a alienação e escapar ao mundo sem sentido onde você só é obrigado a consumir”.</p>
<p>O prazer sensorial irrefletido que, ao contrário do que os filósofos pregam (o prazer da humanidade estaria na descoberta do novo e no cultivo do pensamento), substitui o pensamento pelo conforto da alienação. Valida a vida alternativa que pouca conexão tem com a chata realidade, e estimula a alienação do real.</p>
<p>Ilustrando: como o filme parece muito com os clássicos jogos de RPG, em uma versão futurista, não será espanto que logo se torne mania entre os gamers e reproduzindo uma realidade alternativa; futura opção, por exemplo, para os “Hikikomoris” em potencial que procuram RPGs massivos online para fugirem abrigarem-se do real.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=34</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A indústria cultural de Adorno e o mal estar na civilização</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=31</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=31#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 06 Dec 2009 02:01:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=31</guid>
		<description><![CDATA[A indústria cultural, termo dado por Adorno e Horkheimer à cultura do século XX, delineou-se juntamente com o desenvolvimento tecnológico do capitalismo e se estende até os dias de hoje. A questão central que Adorno coloca acerca da indústria cultural é que nela a produção cultural foi expropriada do indivíduo, do artista como criador, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A indústria cultural, termo dado por Adorno e Horkheimer à cultura do século XX, delineou-se juntamente com o desenvolvimento tecnológico do capitalismo e se estende até os dias de hoje. A questão central que Adorno coloca acerca da indústria cultural é que nela a produção cultural foi expropriada do indivíduo, do artista como criador, e passou para as mãos da classe dominante, detentora do poder econômico. Antes deste período a cultura era gerada por indivíduos que usavam sua imaginação e espontaneidade para criar arte. Estes dois fatores fomentavam a individualidade das pessoas em detrimento de suas identidades universais, de suas identidades coletivas, advindas do senso de grupo impresso pela sociedade. Assim havia mais liberdade, as pessoas podiam se voltar mais para as individualidades, e mais atos criadores surgiam. Entretanto, a partir do momento em que o capitalismo eclodiu com imensuráveis avanços tecnológicos, a classe dominante, no controle da máquina capitalista, detentora da técnica e do poder através da economia e de seus mecanismos reguladores, viu a necessidade e conveniência de transformar o bem cultural em bem de consumo. Como formas de controle das massas e de manutenção de poder sobre elas. O bem cultural passou a ser não mais fruto de produções individuais disseminadas a grupos, a arte não mais era produto de individualidades originais espontâneas, passou a ser produto de um esquema instaurado e destinado a ser mantido. Toda a produção cultural começou a ser codificada para reproduzir os esquemas do capitalismo, fórmulas a serem repetidas. Com essa repetição, sem o evento novo para atrapalhar o giro da máquina, toda a cultura poderia ser codificada e, desta forma, submetida ao despotismo da classe dominante. Destarte, a classe dominante poderia controlar a massa através da instauração de uma cultura que pudesse ser consumida e controlada.</p>
<p>A indústria cultural acabou com a criação original, gerando “a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor de hoje”. Tudo foi codificado em esquemas que se reproduzem. Desde o filme de Hollywood, que todos sabemos como começa e como termina (e sentimo-nos felizes e acolhidos quando nos familiarizamos com o final da história, como uma previsão que se realiza), até os grandes sucessos musicais do rádio. Roteiros simbólicos, códigos que produzem e se reproduzem no cinema, no teatro, na televisão, na música. Este jogo de mesmice simbólica é mais profundo do que uma mera repetição de histórias, enredos, no cinema. Vai para além disso; insere-se em nossa maneira de pensar já nas histórias infantis, nos programas de televisão para crianças. Neles a conformação eterna de uma classe submetida, que vê o objeto de desejo mas nunca desfruta do mesmo, é inculcada através da habituação dos sentidos, nos quais se vê que o efeito deles “é o de martelar em todos os cérebros a antiga verdade de que o mau trato contínuo, o esfacelamento de toda resistência individual, é a condição da vida nesta sociedade”. Desde cedo entramos no jogo simbólico da sociedade sabendo que devemos abrir mão de nossas instâncias pessoais para funcionar a favor da sociedade.</p>
<p>Assim existimos não por algum propósito nobre ou humanitário, mas existimos para consumir. As regras do jogo que nos são imputadas traduzem o senso de que vivemos para consumir, e de que conforme o que consumimos, pertencemos a determinada classe detentora de determinada quantidade de poder. Assim como assinalou Pierre Bordieux em “A economia das trocas simbólicas”, moda, língua, comportamentos, gostos musicais, e ao abarcando tudo isso a cultura, fazem parte de um jogo simbólico que determina em que posição da estrutura social estamos. Neste jogo a classe mais favorecida economicamente é detentora de um conjunto de símbolos que o classifica como tal. À grande massa restam os produtos da indústria cultural, ditados pela classe dominante. Massa que quer sempre acender mas nunca ascende, que quer usufruir do gozo mas nunca consegue; resultado da constante domesticação de prazeres frustrados a que somos submetidos desde os desenhos animados que assistimos. É como se fôssemos constantemente bombardeados por símbolos que nos dissessem inconscientemente que devemos consumir, nos frustrar, nos contentar, e que nada fora deste esquema é válido ou tem valor.</p>
<p>É desta maneira que o trabalhador, na produção sem sentido de seu trabalho, pois integra apenas uma peça minúscula de uma enorme máquina capitalista que tem por finalidade apenas a perpetuação do sistema, sai do serviço e consome lazer, diversão, amusement. Entretanto, este prazer não pode sair do esquema, deve representar a mesmice do sistema e deve, portanto, entrar na linha de produção. O indivíduo sai de uma linha de produção como produtor e entre em outra como consumidor. Nisso tudo o que deve importar é a quantidade, é o movimento constante, cíclico do consumo. Se em um filme somos inundados com uma parafernália tecnológica de efeitos especiais e estímulos visuais que, concomitantemente com um enredo ilógico e vazio, tem por objetivo não deixar que paremos para pensar no que estamos fazendo, este mesmo movimento é reflexo assim como indutor do motor que devemos carregar para que consumamos incessantemente. Somos desta forma doutrinados a consumir e a nos conformar com a não realização do desejo individual, da satisfação pessoal, gerando assim um círculo vicioso onde nosso individual é cada vez mais silenciado em prol da manutenção da sociedade consumista.</p>
<p>Não há quase mais individualidade, há apenas coletividade. A indústria cultural, que tudo já codificou de maneira que nada lhe escape, e que já inculcou seu esquema de consumo capitalista nos esquemas de pensamento das pessoas, não tolera coisas fora daquilo que codificou (“risco inútil”). Já está tudo codificado, até os movimentos ditos rebeldes, já são classificados como “revolté” e desta forma acabam entrando no esquema capitalista e reforçando-o, como antítese.</p>
<p>E para perpetuar este esquema é essencial que se tenha um ritmo. Assim, tudo deve “continuamente fluir, estar em movimento. Pois só o triunfo universal do ritmo de produção e de reprodução mecânica garante que nada mude, que nada surja que não possa ser enquadrado”. O círculo vicioso se fecha; constante bombardeamento do esquema social de aceitação da frustração, de diminuição da individualidade, de seus desejos e de seus conseqüentes atos criadores (imaginação e espontaneidade) em prol da sociedade, da identidade de grupo. Os esquemas a serem inculcados são sempre os mesmos, o de incitar o desejo mas de nunca o satisfazer. O vazio e a frustração como força motriz, a sublimação como conformação a um desejo que sempre é buscado mas nunca alcançado. Fome, insaciável. A máquina de consumo, símbolo macroscópico do sistema capitalista, faz-se como representante microscópico no indivíduo que desenvolve a fome consumista. O todo que é igual às suas partes. Assim some o indivíduo, imerso na cultura.</p>
<p>O ritmo constante desta fome faz com que tudo se planifique, faz com que tudo permaneça na superfície. Não há tempo para o aprofundamento e eventuais questionamentos, o ritmo e o movimento contínuo, citado anteriormente, destrói a possibilidade de reflexão, de introspecção e da conseqüente abordagem do interior. O que importa não é o conteúdo, mas o movimento. Não importa muito o que se consome, importa é que se consome.</p>
<p>A indústria cultural cria, desta forma, indivíduos com pouca individualidade, mais coletivos do que singulares, que não são permitidos a fazer outra coisa que não consumirem, restando-lhe o vazio do esquema onde o válido é o movimento pelo novo, novo destituído de conteúdo já que o que importa é o movimento em si; novo vazio.</p>
<p><img class="aligncenter" title="Andy Warhol" src="http://pr0cr4stin4te.files.wordpress.com/2009/01/warhol.jpg" alt="" width="349" height="487" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=31</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Doença psicossocial e o simbólico; o que a crise mundial e o sistema capitalista têm a ver com nossa subjetividade</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=28</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=28#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 12 Oct 2009 15:29:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=28</guid>
		<description><![CDATA[Alguns fazem crítica ao prêmio Nobel da Paz de Obama alegando que o presidente americano venceu devido ao fato de ser uma celebridade, de ter status de pop-star, e de estar nos principais meios de disseminação eletrônica; a &#8220;doença psicossocial&#8221;, mencionada em reportagem do Estado no caderno &#8220;Aliás&#8221; deste domigno, seria responsável pela escolha de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alguns fazem crítica ao prêmio Nobel da Paz de Obama alegando que o presidente americano venceu devido ao fato de ser uma celebridade, de ter <em>status</em> de <em>pop-star</em>, e de estar nos principais meios de disseminação eletrônica; a &#8220;doença psicossocial&#8221;, mencionada em reportagem do Estado no caderno &#8220;Aliás&#8221; deste domigno, seria responsável pela escolha de Barack, como forma de impulsionar pensamentos e uma filosofia pacificadora através de sua imagem cada vez mais presente na internet. A tal doença refere-se à obsessão de norte-americanos (e conseqüentemente de boa parcela da população mundial) nos <em>gadgets</em>; o contato humano se tornou obsoleto em si e cedeu terreno aos sites de relacionamento, ao e-mail, ao Twitter e afins.</p>
<p>Por outro lado outros comentam a crise mundial como resultado da super-especulação imobiliária (no mesmo país) que deixa revelar o frágil sistema econômico que permeia o mundo contemporâneo. A virtualidade do dinheiro e a falta de lastro (leia-se, ligação com a realidade) deste mesmo faz com que o valor das coisas seja mais arbitrário do que o comum; ergue-se os pés do chão para realizar-se um vôo em direção ao indefinido onde não mais se sabe o valor das coisas, onde o dinheiro perde o seu sentido (será que teve sentido alguma vez?).</p>
<p>Ainda no mesmo &#8220;Aliás&#8221; voltam as críticas ao sistema capitalista, incita-se uma nova ofensiva contra o capital e seus desdobramentos.</p>
<p>O que todas estas coisas tenham em comum, e o que nelas interessa para a saúde mental, é uma hipertrofia de um campo intermediário. Dizia Pierre Bordieux (entre outros), a humanidade caminha para um crescente desenvolvimento do campo simbólico, com sofisticação e aumento de complexidade cada vez maiores. Novas esferas simbólicas se desenvolvem, novas ciências, todas frutos de uma abstração cada vez maior dos homens, e com isso o simbólico se expande e se torna mais rico.</p>
<p>O resultado disso é por um lado o desenvolvimento intelectual e científico. Podemos entender melhor de onde viemos, desenvolver teorias de maior complexidade, tentar alçar conhecimento às complexas relações que a natureza comporta. Entretanto também criamos maior quantidade de problemas, e criamos problemas, às vezes, ao mesmo tempo em que criamos os instrumentos para os solucionarmos.</p>
<p>Neste caminhar contínuo do desenvolvimento e sofisticação do simbólico um dos perigos é o de perdermos o contato com o real, como ilustrado <em>en passant</em> pela supra-citada doença psicossocial dos <em>gadgets</em> de comunicação. Se este movimento de abstração nos traz a evolução da espécie e do pensamento humano, corremos o risco também de ficarmos preso nesta mesma abstração através da adoção exclusiva do simbólico e do afastamento da realidade.</p>
<p><img class="alignleft" title="simbolo" src="http://mandalamystica.com.br/images/labirinto.jpg" alt="" width="300" height="298" /></p>
<p>É o caso dos <em>gamers</em> que ficam presos na realidade virtual dos RPGs e acabam desidratando, ou, como algumas vezes já foi relatado, até morrendo. Ou do executivo que, ocupado demais com a empresa e as exigências de sua posição, acelera em ritmo doentio e submerge nas demandas do emprego, perdendo sono, tranqüilidade e saúde mental. Em pról de algo que nem mais sabe responder o que é. Ou o caso dos consumistas iveterados que encontram-se fundidos ao sistema capitalista de criação de intermediários e compram sem mais saber por que motivo; na verdade comprar para apaziguar uma sensação indiferenciada interna de angústia, ou, em linguagem mais corriqueira, para preencher seus vazios. Ou o caso do subemprego, que se presta a funções sem sentido para que se crie condições de subsistência mínima no cruel mundo econômico do terceiro mundo, ou muitos outros casos que se poderia citar.</p>
<p>O desenvolvimento do simbólico traz seus (muitos) benefícios, mas o seu lado obscuro pouco é abordado. Solução para isso seria um freio a ser posto, para que este crescimento fosse feito com parcimônia; no capitalismo e no conseqüente pensamento que daí tira seu funcionamento. Mas a atual crise econômica mostra que é difícil se colocar freio em algo que, como a fome, aguça os instintos do homem. O capitalismo hoje deixou de ser selvagem para ser visceral.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=28</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Ética e a sociedade</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=18</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=18#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 02:12:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=18</guid>
		<description><![CDATA[Saiu no Caderno MAIS da Folha de São Paulo uma reportagem sobre a ética dos brasileiros. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, os brasileiros têm um senso ético apurado, comparado a países como Noruega e Finlândia. A despeito disso, a maioria da população admite já ter cometido delitos. Uma disparidade que com certeza nos faz pensar.
Nosso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Saiu no Caderno MAIS da Folha de São Paulo uma reportagem sobre a ética dos brasileiros. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, os brasileiros têm um senso ético apurado, comparado a países como Noruega e Finlândia. A despeito disso, a maioria da população admite já ter cometido delitos. Uma disparidade que com certeza nos faz pensar.</p>
<p>Nosso senso ético pode ser encarado de diversas maneiras; uma mistura de pensamento racional com pensamento emocional, visões consequencialistas <em>versus</em> visões deontológicas. Várias destas maneiras têm seus defensores e críticos, mas uma das partes que coloco em foco é a função da ética na sociedade.</p>
<p>De que nos serve a ética? De maneira bastante simplista, é constiuinte fundamental da sociedade, serve basicamente para a funcionalidade da vida em grupo. É ferramenta essencial para a manutenção da sociedade, como norma intuitiva e/ou objetiva do que é certo ou errado. A ética sempre parte do grupo para o indivíduo, visando manter a coesão daquela primeira.</p>
<p>Sendo parte visceral da sociedade, podemos fazer algumas suposições sobre o contrasenso apresentado acima sobre senso ético e atitudes contrárias a ele; a primeira delas é óbvia e é a de que o brasileiro não burla por ignorância, mas sim por outros motivos.</p>
<p>Pois bem, que motivos? Poderíamos pensar de uma perspectiva psicológica; o funcionamento do desejo e da regra imposta, do deleite em quebrar a regra, em escapar às sansões elaboradas pela sociedade. Muito poderia se desenvolver sobre a figura do pai como elaborador de regras, como responsável por jogar a criança à sociedade, sobre o Brasil paternalista. Explica algo, mas ainda é pouco; na Noruega também há humanos com seus desejos e suas regras, e lá não há esta disparidade &#8220;senso ético x atitude anti-ética&#8221;. Penso que tais explicações são perfeitamente válidas para as sessões de psicoterapia, para o individual. Fazem sentido para a psicanálise como ciência do individual.</p>
<p>Uma explicação etiológica deste gênero, entretanto, tem necessariamente de levar em conta fatores históricos e étnico-culturais do Brasil. Mas não pretendo analisar isso aqui; aponto apenas como alguns dos fatores envolvidos o fato de termos sido colônia por muito tempo, o papel secundário que sempre tivemos na política internacional (sempre debaixo das asas de outros países, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, etc.) e os nossos colonizadores.</p>
<p>Prosseguindo para o que desejo realçar aqui; aumentando-se um pouco o escopo atentamos os olhares para a massa e seu funcionamento dinâmico. Para que precisamos assimilar regras? As regras de uma ética são necessárias ao nosso desenvolvimento. Só podemos nos fazer indivíduos, completos, quando ingressamos na sociedade. Isso tem um preço, renunciar aos nossos desejos e impulsos para cumprir algumas exigências de vida em grupo, representadas entre outras coisas pela ética. Nosse senso ético hipertrofiado, destarte, denuncia que estamos em estado de necessidade de sociedade. Ter este senso assimilado com tanta acurácia na mentalidade popular denota que queremos este senso, que necessitamos destas regras de sociedade e nos revela esta necessidade.</p>
<p>Por outro lado, as atitudes contraditoriamente opostas denunciam também que estas regras, apesar de as querermos por nossa carência de sociedade, não encontram validade, e acabamos sucumbindo à individualidade dos nossos desejos não-coletivos. Quando não nos marcamos corretamente pela sociedade, suas regras não fazem sentido, produzindo a ambiguidade de as necessitarmos, para adentrarmos o mundo coletivo, e de não a necessitarmos, pois pouco marcados sucumbimos mais facilmente à nossa interioridade.</p>
<p>Não adianta enrijecer as leis apenas, temos de fazer com que ela faça sentido a nós, temos de envolver os indivíduos em uma sociedade real e não alienada.</p>
<p><img class="alignnone" title="Ética" src="http://arturfelix.files.wordpress.com/2009/05/etica3.jpg" alt="" width="428" height="480" /></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=18</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cafezinho para aprender o abecedário</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=14</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=14#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 22 Sep 2009 17:45:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=14</guid>
		<description><![CDATA[Vi na televisão uma reportagem falando dos benefícios do café para a criança, ressaltando principalmente seu melhor rendimento nas escolas. Evidentemente a reportagem falava mal dos abusos da substância cometido por adultos, não recomendava seu uso para quem tivesse qualquer problema psiquiátrico; mas falava de seu poder anti-oxidante no organismo e enfatizava o fato de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vi na televisão uma reportagem falando dos benefícios do café para a criança, ressaltando principalmente seu melhor rendimento nas escolas. Evidentemente a reportagem falava mal dos abusos da substância cometido por adultos, não recomendava seu uso para quem tivesse qualquer problema psiquiátrico; mas falava de seu poder anti-oxidante no organismo e enfatizava o fato de estimular a criança, deixá-la mais atenta, render mais na escola.</p>
<p><img class="alignleft" title="Café" src="http://blogdoestudante.files.wordpress.com/2009/03/cafe.jpg" alt="" width="597" height="396" /></p>
<p>O café é uma das substâncias mais &#8220;abusadas&#8221; no mundo inteiro, ou seja, é a que mantém um dos maiores contingentes de dependentes e de pessoas que a usam de maneira nociva no mundo (sim, em alguns <a title="Cafeína na Austrália" href="http://www.news.com.au/story/0,27574,25936850-421,00.html" target="_blank">lugares </a>há mais &#8220;viciados&#8221; em café do que em cigarro, maconha ou álcool). De um lado proibe-se o fumo em locais públicos, mas por outro regulariza-se o uso de café nas escolas, tornando-o rotina?</p>
<p>Alguém poderia argumentar que o fumo não apresenta qualquer tipo de benefício, o café sim. Mas é só isso? E a grande massa de pessoas estimulante-dependentes que a cafeína gera? Se este risco é real, o que dizer de medidas que apóiam o uso do estimulante aos escolares?</p>
<p>Esta medida deve ser entendida de duas maneiras, não necessariamente excludentes: a primeira é que alguém quer vender café. E possivelmente este alguém tem um <em>lobby</em>  considerável junto aos tomadores de decisões para <em>estimular </em>o uso do estimulante.</p>
<p>A segunda vem na esteira da combinação voraz de nossos instintos com o sistema econômico. Não é novidade para ninguém que o capitalismo é um regime dedicado ao acúmulo de dinheiro (ou mais-valia), <em>coisa </em>que constitui-se a principal codificadora de nosso mundo hoje em dia (já que tudo resume-se a ter mais ou menos dinheiro). Este excesso que somos ensinados a acumular e que nos confere poder faz paralelo com a nossa gula, onde comemos para além do que deveríamos. Nunca se ganha dinheiro suficiente, é preciso sempre ganhar mais, assim como o guloso que nunca come o suficiente para sua sobrevivência. Apesar de o termo ser batido, o prazer da gula pode ser compreendido pela oralidade de Freud. A fome é insaciável, a fome de dinheiro cresce de maneira exponencial.</p>
<p>Nesta escalada de vazios, faltas, preenchimentos, satisfações e novos vazios, novas buscas, etc., a humanidade avança para além de sua capacidade. A velocidade é maior do que podemos suportar; surgem as velhas questões de tempo, de ansiedade, e a coisa acaba, terrivelmente, se espalhando para os escolares. Pois eles não podem, agora, ter o direito mais de ter sono pela manhã. Devem acordar já alertas e prontos a engolir toda a informação que lhes for oferecida (claro, se houver um cafezinho por perto, a digestão é até melhor!).</p>
<p>Como se não bastasse a maré de TDAHs (uma das <a href="http://pn.psychiatryonline.org/cgi/content/full/40/16/3" target="_blank">ondas farmacológicas </a>da psiquiatria capitalista consumista) que faz a alegria dos adeptos ao biologismo psíquico, agora mesmo aqueles com &#8220;soninho&#8221; ou &#8220;meio dispersos&#8221; na aula vão direto para o café! (mas discreta e sutilmente, pois <strong>pode ser </strong>que um dia vá causar dependência&#8230;)</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=14</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Panis et&#8230; Vôo 447</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=8</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=8#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2009 12:37:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=8</guid>
		<description><![CDATA[Quando estava ainda no ensino fundamental lembro-me muito bem que a professora de português, tentando fazer com que pensássemos no mundo em que vivemos e fazendo uma crítica aos meios de informação, nos questionou por que os jornais não exibiam reportagens sobre a vida comum; pessoas que vão a feira, outras que trabalham, aquelas que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando estava ainda no ensino fundamental lembro-me muito bem que a professora de português, tentando fazer com que pensássemos no mundo em que vivemos e fazendo uma crítica aos meios de informação, nos questionou por que os jornais não exibiam reportagens sobre a vida comum; pessoas que vão a feira, outras que trabalham, aquelas que pegam ônibus, enfim, por que não se noticiava o dia-a-dia de um trabalhador comum, por exemplo, ao invés de se veicular somente tragédias. Levantei o braço e falei que se assim fosse, não se venderia nenhum jornal pois ninguém iria comprá-los.</p>
<p>O avião da Air France caiu no mar há mais de duas semanas. Foi uma tragédia que vai marcar a história; jornais, televisão, rádio dão o devido enfoque ao assunto. Não é isso que questiono, acho que um fato desta magnitude deve ser noticiado, e bem noticiado, para que se crie uma comoção e para que as autoridades cuidem para que ele não se repita. O que questiono é a validade de algumas <a href="http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1202996-5598,00.html" target="_blank">reportagens que descrevem detalhes sem qualquer importância do acidente</a>. Em segundo lugar, o uso que se faz destas reportagens.</p>
<p>Se pensarmos no jornalista que redigiu o texto, qual o intento dele? Escrever uma reportagem cujo assunto é o destino dos corpos achados no fundo do mar, qual motivação teria alguém para noticiar algo assim? Vender.</p>
<p>Bruno Bettelheim em seu &#8220;Psicanálise dos Contos de Fadas&#8221; nos diz que, para que um conto de fadas seja eficaz, você não deve alterá-lo em seu texto original. Deve lê-lo para a criança sem alterar o conteúdo da história, por pior (no sentido de medonho) que ele seja. A criança, na formação de seu pensamento como instrumento simbólico que traduz sua interioridade para o exterior social, é que deve formar as associações, ligar a bruxa e sua maldade aos seus próprios conteúdos obscuros, ligar seus sentimentos de raiva à destruição presente na história. É assim que algumas pessoas pensam que alguns contos de fadas são macabros, ou tristes. Na verdade até o são, mas são saudáveis às crianças, que podem buscar instrumentos de extravazar sua tristeza e sua raiva, por exemplo, através das histórias que simbolizam isso, que lhe fornecem possibilidade para isso. É assim que, se um adulto imprime sua subjetividade na história, alterando seu conteúdo ou emitindo opiniões, ele destrói esta capacidade do conto.</p>
<p><img class="alignright" title="Vôo 447" src="http://oglobo.globo.com/blogs/arquivos_upload/2009/06/129_83-alt-fofabasa.jpg" alt="" width="400" height="317" /></p>
<p>Filmes, peças de teatros, livros e, também, notícias constituem-se nos nossos &#8220;contos de fadas&#8221; adultos. Assistimos àquele militar atirando em mil e uma pessoas, ou aos serial killers que montam um grande suspense a ser desvendado no final do filme, em parte para veicular este nosso conteúdo anti-social não expresso. Estas pulsões contrárias à vida em sociedade acham meio de surgir de nosso inconsciente através dos filmes, que as viabiliza e as realiza. É assim que sentimos um certo prazer ao assistir esses filmes violentos. Assim também  notícias sobre o destino dos corpos do acidente aéreo nada mais parecem a mim do que as mesmas tentativas de mobilizar uma determinada platéia. Nossa &#8220;curiosidade macabra&#8221; procura, até o limite que cada super-ego impõe a cada um, os detalhes mais sórdidos da tragédia. Nossos instintos mais obscuros e que não podem aparecer no dia-a-dia, são satisfeitos com estes detalhes. Mas qual o intuito desta mobilização?</p>
<p>A primeira é evidente, é a venda do jornal, ou do magazine, ou audiência na televisão. Infelizmente em um mundo onde tudo tem seu preço e onde tudo é vendido, vale utilizarmos de tais subterfúgios para mobilizarmos uma população estafada e saturada de violência urbana.</p>
<p>O segundo é mais sutil. Enquanto se veiculam notícias como estas, deixa-se de prestar atenção a outros fatos importantes que estão ocorrendo. Por exemplo, a greve na USP (ou a movimentação dos servidores públicos do Estado de São Paulo em busca de aumento de salário, e muitas outras notícias não divulgadas). Navegando nos três grandes portais de notícias na internet (UOL, Terra e Globo) não se vê sequer traço da paralização, que já dura mais de um mês e que já teve até guerra entre policiais e alunos, ao velho estilo de repressão da livre expressão. Qualquer lembrança de ditadura é mera coincidência. Desta forma, este é um fato que está passando em branco. Muita gente não sabe. E, a despeito de concordar ou não com a greve, pois esta opção não é dada uma vez que nem se sabe que está havendo guerra, muita gente não sabe que ela está sendo abafada pela polícia da maneira ostensiva e pela mídia.</p>
<p>Desta forma perversa é que se manipula a opinião pública veiculando-se aquilo que mata a fome do povo por <em>circensis</em>, e encobrindo-se outros fatos importantes e fundamentais para a sociedade. Por que não noticiam que uma das hipóteses de o avião ter caído foi possivelmente o fato de não terem trocado os sensores do avião? Sensores novos teriam chegado em cima da hora e a empresa, não querendo atrasar os vôos (não se pode parar de produzir, não se pode parar de lucrar!), optou por não trocá-los. Por que não noticiam que um dos culpados é o capitalismo? Seria atirar no próprio pé.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=8</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Vítima da arrogância</title>
		<link>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=3</link>
		<comments>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=3#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 20 Jun 2009 23:03:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Loch</dc:creator>
				<category><![CDATA[Futebol]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.psiq.med.br/loucurologus/?p=3</guid>
		<description><![CDATA[Sou corinthiano, isso não tem jeito; mesmo. Mas gosto sobretudo do bom futebol. E gostava do time que o São Paulo havia armado sob o comando de Muricy Ramalho.
 Apesar de seu mal-humor nas entrevistas e de uma certa arrogância, em parte inerente ao clube que representava e em parte inerente ao cargo que ocupava, gostava de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sou corinthiano, isso não tem jeito; mesmo. Mas gosto sobretudo do bom futebol. E gostava do time que o São Paulo havia armado sob o comando de Muricy Ramalho.</p>
<p><a href="http://esportes.terra.com.br/futebol/brasileiro/2009/interna/0,,OI3835558-EI13759,00-Muricy+reconhece+que+nao+foi+bem+mas+agradece+torcida.html"><img class="alignright" title="Muricy Ramalho" src="http://img.terra.com.br/i/2009/06/20/1240806-4319-it2.jpg" alt="" width="286" height="170" /></a> Apesar de seu mal-humor nas entrevistas e de uma certa arrogância, em parte inerente ao clube que representava e em parte inerente ao cargo que ocupava, gostava de seu trabalho. Há que se pensar que foram 3 títulos brasileiros seguidos, e justamente nos 3 últimos campeonatos. Não é um feito fácil tendo-se em vista um campeonato longo, que dura o ano inteiro, sendo que no meio do ano há geralmente uma &#8220;evasão&#8221; dos melhores jogadores para times da Europa; ofertas milionárias do bom e velho-&#8217;velho continente&#8217; em um mundo que não perdeu o hábito de dividir nações em empregadoras e empregadas.</p>
<p>Além disso deve-se ressaltar também que o São Paulo deste último triênio também não apresentou nenhum craque, nenhum jogador de grande destaque que fizesse a diferença em campo. Excluindo-se Rogério Ceni, que merece mais destaque pela fidelidade ao clube do que pela técnica (acho-o um goleiro bom, mas não excepcional; um bom líder), não houve nenhum jogador insubstituível nestes três anos.</p>
<p>Levando-se isso em conta, podemos considerar que Muricy foi o verdadeiro astro deste time. Com todos estes empecilhos, fez o time tricolor emplacar três títulos brasileiros seguidos. Apesar das eliminações na Copa Libertadores, não foram campanhas medíocres. Simplesmente trombou com times que contavam com um elenco muito mais bem preparado e com muito mais jogadores de destaque do que ele.</p>
<p>Apesar deste histórico positivo, Muricy foi pra rua. Como se fosse uma certa &#8216;obrigação&#8217; o time do São Paulo, tri-campeão mundial, depois de ter acesso a uma Libertadores ter que ganhá-la. Na época do bi só mencionar Rai já justificaria o sucesso. Quem seria o Rai de hoje no São Paulo? E no futebol brasileiro, quem faz sombra ao antigo meio-campista da seleção brasileira? Mesmo assim o time já não poderá mais contar com seu trabalho, infelizmente.</p>
<p>A empáfia da diretoria do São Paulo (ou mesmo do próprio treinador, se foi opção dele mesmo em se retirar do clube, o que é difícil&#8230;) acabou com o trabalho de um ótimo profissional. O pensamento arrogante de que o time não pode tolerar qualquer derrota (ainda mais com o atual elenco) colocou Ramalho na rua.</p>
<p><a href="http://esportes.terra.com.br/futebol/brasileiro/2009/interna/0,,OI3835558-EI13759,00-Muricy+reconhece+que+nao+foi+bem+mas+agradece+torcida.html" target="_blank">Reportagem do Terra</a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.psiq.med.br/loucurologus/?feed=rss2&amp;p=3</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
